Yangprj e Neggs – Libertador

resenha: Yangprj e Neggs – Libertador

A dupla que vive em Teresina (o Yang nasceu em Natal) foi uma das grandes surpresas de 2025. Com a primeira versão de LIBERTADOR, o produtor e o MC fazem algo que boa parte do rap, por exemplo, não conseguiu fazer de um jeito pá (caiu no trap funk e sei lá, ficou fuen): equilibrar a parte gangsta de sua formação com o swag de um país quente e criar um diálogo com o funk e a putaria. E não estou falando de ritmo ou de papo vergonha alheia sobre mulher, nem chamar as minas de bitch para rimar o termo em inglês com ele mesmo, estou dizendo que os dois pegaram a voz do funk e inseriram putaria no meio de uma crise existencial e de reflexões de moradores do gueto do gueto em pleno capitalismo tardio.

LIBERTADOR troca ideia intensamente com o Racionais MCs do Nada Como Um Dia, ao mesmo tempo que olha para o Djonga e a geração “ano lírico” da molecada. “O menino queria ser Deus / cometeu Heresia”. Porém a conversa aqui não é só homenagem, é afronta ao estado que o hip hop como cena e como som está. Sabe o papo de que “seria ótimo todo mundo falar de política” e que deu no que deu? O rap meio que chafurdou em vários aspectos — e nem é o diálogo combativo (pô, estou elogiando o diálogo com o funk e a putaria nos moleques). O lance é que se esvaiu muito do que o fazia ser esse gênero que salva tantas vidas e aí muita coisa hoje é tipo jingle de comercial pior que aquela vinheta do rádio da Mack Color. Além disso, foi abraçado pelo Complexo Industrial-Musical™ e o dinheiro, como sempre, não foi distribuído do jeito justo.

O álbum fala de Teresina e fala do Piauí. Ao mesmo tempo, ele está ali refletindo sobre a vontade de NEGGS de tomar o jogo para ele e de inverter o polo da produção do rap do Brasil para o nordeste/norte. O MC se afirma durante todo o disco como um dos maiores do jogo — e ele faz isso do jeito certo. Não é o braggadocio de quem a gente sabe que não come ninguém (ou come pra caralho, mas ninguém bem) e nem o vazio melancólico da adoração e ostentação de marcas que querem distância dos pretos, pobres e favelados. Ele quer tudo que esse sistema econômico bosta que a gente vive proporciona sim. Ele quer o bom e ele quer o melhor. Mas ele vê e vive o sangue que está por trás de tudo isso. E ele rima, rima pra caralho. Ele está durante boa parte de LIBERTADOR em uma encruzilhada do capitalismo parecida com a do Brown em “Vida Loka Parte II”, como diz o Amauri Gonzo aqui do Crise, passando por pensamentos introspectivos similares com os de “Jesus Chorou”: “o que adianta eu ser durão não suportar o sentimento?”.

Por isso, os beats do Yangprj soam como uma cama bem macia e arrumadinha para os versos e os flows de NEGGS. O clima boombap e bem lo-fi acaba sendo o pano de fundo perfeito para a pugna do MC entre se afirmar como um dos melhores do jogo, o estado que o rap está e todas as suas noias de estar inserido em um mundo diferente, mas não tanto, do cantado pelo gangsta rap dos anos 90. E aí, nesse ambiente meio dia cinzento de Onde São Paulo Acaba dentro de Teresina, tem espaço para reflexões sobre o que é sucesso, a violência direta e indireta nas periferias da capital piauiense e suas consequências materiais e psíquicas para as pessoas que vivem esse cotidiano.

LIBERTADOR é uma das grandes surpresas de 2025 justamente por ter o mérito de propor um “swag triste” e uma meta reflexão dentro de um gênero que, convenhamos, tá soando inócuo há um tempo, com exceção de um ou outro nome que sempre brilha. Yangprj e NEGGS vêm, desde o disco de 2024, com a mesma fome que Don L e Nego Gallo em 2007, no Costa a Costa. Enquanto a dupla está munida de ódio e sonhos, no ano que acabou de acabar ela é sim uma palavra com nove letras: vitoriosa.

  • O Marcondes é roadie do Crise e mais esperto que geral: não tem rede social nenhuma. Ele também trampou na falecida VICE e se vacilar ele h4ck3i4 você.

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