Legenda da foto: Teia estrategicamente não-retirada no teto do Niá | Crédito: roubadada de @mutanttales
Bom, já que o Male inaugurou a fase “sítio do Crise Crise Crise enquanto blog”, lá venho euzinha dar a minha blogada porque ninguém é de ferro né.
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Nesta quarta-feira (3/3) colei com meu digníssimo no Niá, no Bixiga (aka melhor bairro do mundo) para assistir uns shows de música um tanto extrema, outro tanto experimental, com um punk no final que ninguém é de ferro (né).
Pra quem ainda não sabe, o Niá é uma casa na Conselheiro Ramalho que desde 2025 recebe boa parte dos shows de música avançada e/ou barulhenta que permeiam como fantasmas zombeteiros esta maltratada capital do Sul do mundo. Mais que uma casa, é um porão com um quintal. Aposto que a Amanda iria adorar (eu curto).
Mas bem, o som. A noite começou com um experimento de noise da Renata Campos (mais conhecida pelo projeto Tunnel) que não entendi se é dona, sócia, sei lá o quê da casa. Ela ficou fazendo barulho do andar de cima e eu fiquei sem entender nada (elogio). Achei super conceito e quero ver para onde essas experimentações vão, senti (posso estar errado? sempre posso) que ainda tem um amadurecimento pra rolar. Mas foi doido.
A segunda atração foi o duo Cerne. Já tinha visto eles antes, tocando com o Bruno Belém e o gringo Mattin num evento organizado pelo chapa JP Caron. E mano, tinha sido bom, mas essa vez foi MELHOR AINDA. Vejam, o Damião toca uma guitarra de DEZ CORDAS. Não tipo, encordamento duplo, viola 12 cordas, mas tipo braço da grossura de um baixo de seis cordas, saca? Nunca tinha visto antes guita assim ao vivo. E eles fazem metal-drone-noise de respeito. Vão construindo camadas e camadas com processamento sonoro, a Rayra nas traquitanas e o Damião juntando loops e mais loops. Dá aqueles “wall of sound” de deixar o Phil Spector surdo. Em tese era pra ter black metal em algum lugar, mas achei mais algo entre o eletrônico e o doom/drone memo. Sunn O))) brasileiro, na moral, máximo respeito como diz a poetisa.
E também vieram uns tcheco. Fiquei zoando de gastar uns “dobge” do meu polaco vagabundo com eles, parecem ter achado engraçado ou tavam rindo da cara do tiozinho aqui (eles são tizionhos também). O Chrup é exatamente o que tava escrito no flyer: “noise alucinante”. Definitivamente música pra TDAH, não passava nem 2 segundos antes de mudar alguma coisa no som, às vezes completamente. Gente que nem o Zé do Existência com Gosto de Nada ficou a apresentação inteira vidrada com a velocidade que o tcheco trocava os barulhos (eu também, já sentado num banquinho afinal sou tiozinho).
E por fim, porque sim são 4 shows numa noite só, foi a hora da punkeragem vagabunda do Bestia Punk (que foi formada em 2025 e sobre a qual existe pouquíssima coisa online, pense num segredo bem guardado). O baterista era emprestado do escrete canarinho, o Igor, velha guarda das podreiras locais, tocando com toda a pressa que só um devoto do d-beat conseguiria. O guitarra eu achei engraçado: maluco era VIRTUOSE. Ele tava com uma blusa do (heresia das heresias) DREAM THEATER, saca? Mas ainda assim, não era crossover. Sei lá como chamar aquela linda maçaroca. O inglês deles fazia o Sarcófago parecer um bando de atores shakespearianos londrinos da gema. Queria ter pogado ao som da versão podríssima e bela de “Bella Ciao” deles, mas o espaço não convida muito ao pogo, nem as minhas costas (seguia eu no meu banquinho). Estive doente no começo da semana e tava com inveja pelo Male ter ido no Scream, mas aí passou, punk tcheco bem tocado mas tosco ao mesmo tempo é pra animar qualquer um. Longa vida ao Niá, que o Paccola tenha cerveja zero na geladeira da próxima vez (já falei que eu tô tiozinho?).
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E falando em música e punk e essas fita, os queridos da sobinfluencia acabaram de colocar em financiamento coletivo o Babilônia em Chamas, do Rick Blackman, que EUZINHA traduzi. É uma história de como movimentos musicais, capitaneados por músicos e gente que trabalha com música, ajudou a segurar a onda dos fascismos na Grã-Bretanha depois da Segunda Guerra. Uma aula sobre antifascismo, reggae, punk, jazz, grime, um monte de papo do Hobsbawn, é FUDIDO. Se você já se interessou minimamente por antifascismo e música popular, é leitura obrigatória. Importante a gente mexer nisso antes de voltarmos a ter um Bolsonaro (ou pior, Ratinho Junior!) no poder.
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Tou traduzindo outro livro sobre música, para a Autonomia Literária. Words for My Comrades é a história política de ninguém menos que TUPAC SHAKUR (sim eu traduzo um monte de livro massa, dessa não posso reclamar, diferente das minhas costas). Reza a lenda que o prefácio vai ser de um certo WEBCOMUNISTA aí. O marxismo cultural não para.
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Falando em trabalho, Male esqueceu de anunciar que temos ESTAGIÁRIO (risos) novo né. Bem vindo Igor Rios! É ele que tá fazendo os cortes mais recentes do Fisher e os Fisherianos (cês viram o Heribaldo Maia elogiando o BOULOS? RÁ!). Seja bem vindo mano Igor, juramos te pagar uma cerveja talvez algum dia (quando o pessoal passar a nos ajudar financeiramente) (e depois de pagarmos a do Protski pra quem gente tá devendo uns quatro engradado só de flyer).
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Falando em Fisher e os Fisherianos, ouviu os que a gente já soltou esse ano? Resolvi começar com o pé no acelerador. Inclusive o foco tá sendo (não só, respeita o TDAH!) falar de música: foi Sofia Celeste e o k-mangue, JP Caron e uma caralhada de coisas (ele é muito inteligente!) e Heribaldo a favor do brega nas festas da esquerda (sobrou uns sopapos pro Red Hot Chilli Peppers sim!). O próximo, 12/03, é música de novo: Ali Prando, o influencer contra o pop. Vai ser mara. E tem mais, bem mais.
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Tipo essa história de seminário de Fisher na Unicamp, que o doutor Luis Tófoli apareceu quinta de manhã anunciando. Pode anotar: prelúdio para o Fisherpalooza 2027. A gente vem com tudo, logo mais ingressos early bird (aquelas).

